Quando o Algarve se senta à mesa com a sua história
Muito mais do que uma colectânea de receitas amplamente fotografada (porque os olhos comem mesmo e às vezes até são mais gulosos do que a barriga), “Algarve Mediterrâneo” é um livro sobre uma forma de estar na vida, à mesa, num território geográfico particular, tirando o máximo partido de tudo - e é tanto - o que ele oferece.
A partir de recolhas de viva voz, de gente habituada uma vida inteira a ouvir as marés, auscultar a terra e acompanhar o ritmo das estações, juntam-lhe uns pozinhos de influência árabe e da passagem dos romanos e, por fim, faz-se a “simbiose entre a terra e o mar”. Isto resulta numa herança milenar única, algarvia até à medula, que transborda destas 320 páginas reunidas em edição da Tinta da China.
Doutorada em Ciências do Ambiente e investigadora em Sociologia da Alimentação, Maria Manuel Valagão é professora e autora de livros, como o especialíssimo “Natureza, Gastronomia & Lazer”, que põem o foco, diríamos nós, na “antropologia do comer”. E já vinha a cozinhar este compêndio, pelo menos no forno das ideias, que as apura e reduz ao essencial, há 20 anos, como forma de cristalizar as suas raízes familiares. São seus os textos, a coordenação de conteúdos e tantas receitas maternas.
Ao jovem e premiado chef Bertílio Gomes lançou o desafio de as reinventar e actualizar, trazendo também ingredientes de sempre para a cozinha de hoje. E sobre Vasco Célio, fotógrafo com base no Algarve a trabalhar para o mundo inteiro, recaiu a escolha para ilustrar tanta abundância. Também disponível numa edição em inglês com a colaboração de Kevin Gould, jornalista do The Guardian que tem uma casa de férias no Algarve e participou de algum trabalho no terreno. Para que o mundo saiba que no Algarve também há “more than meets the eye”. Camadas e camadas de história também à mesa.
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